Temática

A imaginação como potência

A palavra imaginação é ambivalente. Pode ser tanto a capacidade de representar imagens de coisas reais ou ideais como um pensamento que se sustenta em algo que não existe. Seja qual for a orientação que se dê à palavra, o seu fundamento comum consiste em definir a produção de uma imagem que originalmente não pertence aos domínios da realidade material e imediata, mas que projeta nela (ou a partir dela) uma outra visão.

A Imaginação como Potência, temática abordada na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes e que permanece como tema norteador da Mostra Tiradentes SP 2020, sugere a imaginação como essa via privilegiada de desafiar a noção convencional de realidade (e de realismo) e confrontá-la. Nesse sentido, a proposta é refletir sobre os caminhos e os desafios do cinema em um momento de constrangimento aos imaginários que estão fora dos padrões normatizados. Isso é uma guerra que não se dá só no campo institucional, mas também no campo simbólico. É ai, portanto, que se coloca a tarefa de redobrar a vigilância e a ousadia na reflexão sobre o cinema mesmo em debates mais áridos sobre a economia do mercado audiovisual, pois é preciso imaginar outros caminhos para a produção e a exibição do cinema no Brasil. Em condições adversas é preciso lançar mão da imaginação para criar soluções do campo da política institucional e no fomento do mercado e também para disputar as imagens e criar outros parâmetros (formais e simbólicos) de mediação do cinema com o mundo.

De um lado a potência da imaginação em muitos filmes se dá por meio da fabulação que está em uma criatividade exercida a partir das distopias, da angústia e do medo, e então, o mundo imaginado vem responder a esses impasses, rompendo com um certo fardo do realismo. Por outro lado, há uma explosão da imaginação que não vai operar nesse lugar distópico, nem utópico, mas vai criar imagens, procedimentos formais que podem criar disjunções através proposições inauditas. Há fenômenos bem variados, que vão desde o diálogo com o cinema de gênero (sci-fi, terror), passando por filmes que evocam em sua fábula outras noções de temporalidade e cosmogonias (afro, indígena) e filmes identificados como documentários, mas que se lançam a criar imagens fora da ordem do real.

O desejo expresso pelos filmes não é só o de interpretar a experiência atual, mas também o de provocar imagens que nos remetam a uma perspectiva sobre o passado tendo em vista não só um olhar original sobre nossas fraturas sociais e políticas, mas também a superação destas. Filmes, em especial, feitos por pessoas LGBTI, negras, indígenas e mulheres, que procuram reescrever experiências do passado (colonial e/ou recente), para “ressuscitar uma experiência coletiva traumática e enterrá-la adequadamente”, pois uma das camadas do que ocorre hoje no país é uma disputa do imaginário, uma disputa entre formas de entender o passado e formas de projetar o futuro. É possível reconhecer que os filmes tentam não só esboçar o testemunho da ação política dos tempos presentes, mas também se lançam a imaginar outros mundos, outras possibilidades de existência e ir para além do fatalismo preconizado pela barbárie institucionalizada e pela melancolia.

A imaginação nos provoca não só a contemplação, mas também a ação, não só chorar nossos mortos, mas também confrontar nossos algozes, não só a fazer a crítica da realidade, mas projetar um outro tipo de existência, não lamentar o fim de um velho mundo, mas elaborar as bases de um mundo novo. O exercício da imaginação radical é uma possibilidade de transfiguração do mundo.

Francis Vogner dos Reis
Coordenador curatorial

Colaboração:
Lila Foster – curadora de longas-metragens
Tatiana Carvalho Costa – curador de curtas-metragens
Pedro Maciel Guimarães – curador de curtas-metragens
Camila Vieira – curadora de curtas-metragens