CINEASTAS DISCUTEM O QUE É CINEMA E DIFERENTES FORMAS DE CRIAÇÃO AUDIOVISUAL EM DEBATE INAUGURAL DA 9ª MOSTRA TIRADENTES | SP

Uma instigante discussão sobre o fazer cinematográfico marcou a noite de abertura da 9a edição da Mostra Tiradentes | SP, realizada nesta quinta-feira, dia 18 de março. O debate inaugural “Vertentes da Criação” contou com a presença de Viviane Ferreira – diretora-presidente da Spcine | SP; de Maria Tereza Urias – produtora, atriz e diretora | SP e de Cristiano Burlan – cineasta | SP. A mediação ficou a cargo do coordenador curatorial da Mostra Tiradentes Francis Vogner dos Reis| SP.

Abrindo o bate-papo sobre os processos de criação e as suas condições no cinema de São Paulo e no Brasil, Francis Vogner destacou que os três convidados “representam três importantes vertentes do cinema de São Paulo de hoje, uma produção que tem crescido e se diversificado. Curiosamente, os três cineastas participaram da última edição presencial da Mostra Tiradentes, em 2020, e nenhum deles é originalmente de São Paulo. A Viviane é da Bahia, o Cristiano é de Porto Alegre e a Maria Tereza é do Vale do Paraíba”.

O curador apontou ainda que a temática deste ano, Vertentes da Criação, trata sobretudo de questões criativas. “Trazer essa temática para São Paulo estimula uma reflexão de como pensar esses modos de criação na capital paulista, que é um lugar que tem uma tradição industrial do cinema, mas tem também várias outras, como o cinema marginal e o cinema universitário”.

Viviane Ferreira, que abriu as falas por parte dos convidados, compartilhou sua perspectiva como realizadora: “Fazer cinema em São Paulo é como viver aqui. É uma cidade que cabe todo mundo, mas onde tudo é muito setorizado. Por outro lado, São Paulo proporciona encontros entre pessoas de todos os lugares e há espaço para criar, para tentar e que convive cotidianamente com todas as formas. Hoje, à frente da SPCine, posso dizer que em São Paulo as políticas do audiovisual têm a tradição e a possibilidade de pensar o cinema nos diversos estágios de produção”.

Maria Tereza Urias comentou sobre a forma de atuação da produtora Tela Suja, que está completando 10 anos: “Somos um coletivo em que todos os integrantes vieram do teatro, mas de um teatro de grupo de São Paulo, que não se pretende viver ou depender do mercado e que se forja na pesquisa e na experimentação. Nossa experiência de fazer cinema parte desse pressuposto. Não fazemos uma fórmula. Cada filme que produzimos tinha uma necessidade e fomos descobrindo nosso modo de criação a partir de cada história que queríamos contar”.

Para a produtora e atriz, fazer cinema em São Paulo é estar à margem do acesso aos recursos e da distribuição dos filmes. “Mas também, no sentido de podemos beber em fontes cinematográficas e históricas que valorizamos muito, como nossa pesquisa e referência com o cinema latino-americano”. Maria Tereza salientou ainda a disputa de imaginários e ideologias presente nas produções da Tela Suja. “Buscamos um cinema que é crítico, que desconfia. Tem que ter muita garra para fazer cinema em São Paulo. Temos essa garra e não pretendemos parar”.

Já de acordo com Cristiano Burlan, fazer cinema em São Paulo tem a ver com resistência e paixão. “Nunca levantei bandeira por esse modo de produção industrial. Dos 18 filmes que fiz, só dois foram por editais. A gente realiza nossos filmes como pode. São Paulo tem uma espécie de apartheid social, que é muito visível, e isso acaba talhando quem faz filmes aqui”.

Segundo o cineasta, o cinema brasileiro e latino-americano é marcado pela falta de recursos. “O impedimento de fazer alguma coisa deve ser a forma motriz para nosso trabalho. Isso é motivo pra gente continuar fazendo e realizando. A câmera é um instrumento de precisão para entender esse mundo”.

Burlan afirmou ainda que, de certa forma, fazer cinema em São Paulo é gostar de sofrer. “E ao mesmo tempo, o que mais desejo é poder sair para rua para filmar. Nesse momento o cinema se faz necessário, para não esquecermos o que estamos passando”.

Questionada sobre como funciona a criação em um coletivo, Maria Tereza Urias esclareceu que não existe uma fórmula. “Cada coletivo se forma na experiência das pessoas envolvidas e isso tem impacto criativo em todo o processo. Cada experiência é única. No nosso caso, escrevermos nossos projetos coletivamente. Dentro do coletivo temos funções, negamos a hierarquia no sentindo de quem ninguém é melhor que ninguém, mas nos filmes temos nossas funções e responsabilidades”.

Cristiano Burlan frisou que não se considera um profissional do cinema. “Acho que sempre tenho um caminho e muito para aprender. Considero importante ter uma forma de resistência e a minha é continuar fazendo filmes. Por outro lado, percebo que em São Paulo falta um sentimento de irmandade entre os realizadores que poderia facilitar nosso ofício”.

Maria Tereza reforçou a importância da relação com a cidade nas produções. “É não olhar para São Paulo apenas como um set de filmagens tradicional ou publicitário, mas como um lugar cheio de vida, com pessoas do Brasil inteiro que coabitam e constroem esse espaço. Isso interfere diretamente no modo de produção da Tela Suja. Buscamos fazer um cinema anticapitalista e isso é muito forte em relação a cidade, grande metrópole do capital brasileiro. Tentamos olhar para a periferia e fazer um cinema mais solidário, encontramos muita solidariedade entre nossos pares e buscamos uma relação com cada espaço onde filmamos”.

Cristiano Burlan, que também tem uma relação com o teatro, ressaltou as diferenças entre as artes cênicas e cinematográficas. “O cinema tem um modus de produção muito diferente do teatro. Entendo que essa coisa de hierarquização do cinema é um aprendizado. Mas acho a relação de hierarquia do set muito mais duro, meio apavorante. Tento quebrar essa hierarquia e eu sempre quero escutar as ideias dos outros durante as filmagens”. Em tom contestador cineasta realçou que, “o cinema é uma aventura de linguagem e também uma máquina de triturar sensibilidades. Passamos a maior parte do tempo tentando encontrar dinheiro e convencer as pessoas que sua ideia é boa”.

Tanto Maria Tereza quanto Cristiano Burlan concordaram que o setor cinematográfico ainda é bem menos mobilizado do que o teatral.“A luta política no cinema é muito menos organizada no cinema que no teatro. Estabelecer os diálogos é muito mais difícil. Temos muito mais dificuldade de estabelecer uma luta conjunta e mais efetiva”, sublinhou a produtora, atriz e diretora. “Todo filme é um ato político por si só. E este é um momento importante para pensarmos como nos estruturarmos”, enfatizou Burlan.

Os dois convidados também evidenciaram a importância dos festivais, como a Mostra Tiradentes |SP para fortalecer o cinema. “É muito importante, pois é um lugar para ver filmes, ver pessoas e debater os filmes e um espaço de diálogo, de troca de experiências. O pensamento crítico sobre as produções é tão importante quanto fazer os filmes” apontou o cineasta. Para Maria Tereza, trata-se de “um espaço maravilhoso para ver filmes e trocar ideias. É a primeira oportunidade de ter um encontro com o público e do filme ser visto. Isso é incrível”.

Debates cinematográficos

A programação de debates ao vivo da 9a Mostra Tiradentes | SP prossegue na segunda-feira, dia 22, às 18 horas, com a discussão “O Processo e a Cena: os caminhos da dramaturgia no cinema brasileiro contemporâneo”; continua na terça-feira, dia 23, às 18 horas, com o debate “Processo de invenção: o trabalho e a poética do experimental” e termina na quarta-feira, dia 24, às 18 horas, com o debate “Atuação, Performance e Construção de Cena”.

Para acompanhar os debates temáticos, basta acessar o site oficial do evento – www.mostratiradentessp.com.br, onde também está disponível a programação completa da Mostra.

Quem quiser conferir o Debate Inaugural e assistir, as discussões realizadas na 24a Mostra de Cinema de Tiradentes, assim como os bate-papos da série Encontro com os Filmes, os vídeos estão disponíveis no Canal do YouTube da Universo Produção.

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SERVIÇO

9ª Mostra Tiradentes |SP

18 a 24 de março de 2021

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