DEBATE “O PROCESSO E A CENA” ABORDA OS MODOS POSSÍVEIS DE SE CRIAR PERSONAGENS E DRAMATURGIAS NO CINEMA

Nesta segunda-feira, dia 22 de março, foi realizado o segundo debate temático da9a Mostra Tiradentes | SP. Liliane Rovaris, atriz de O Cerco | RJ; Marcus Curvelo, ator e diretor de Eu, Empresa | BA, e René Guerra, preparador de elenco de A Mesma Parte de um Homem| PR, participaram do bate-papo com o tema “O processo e a cena: os caminhos da dramaturgia no cinema brasileiro contemporâneo”. A mediação foi de Lila Foster, curadora da Mostra.

Partindo de três trabalhos presentes na programação do evento e das diversas funções que contribuem para a construção dramatúrgica de um filme, a discussão buscou destacar o trabalho da encenação e da dramaturgia no cinema brasileiro contemporâneo presente em nesta edição da Mostra Tiradentes SP.

Questionado sobre a atividade de preparador de elenco, René Guerra explicou que “esse ofício só existe no Brasil e que em outros países há um profissional que prepara a atuação individual de cada ator/atriz. Temos um marco dessa profissão aqui, com a Fátima Toledo, com o aparecimento dessa pessoa que trabalha com um sistema de preparação coletiva do elenco, que nasce de uma necessidade de uma comunicação entre o elenco e o diretor”.

Para o preparador de elenco do filme A Mesma Parte de um Homem, a estrutura de produção dos filmes brasileiros gera esta necessidade, pois de maneira geral, “os ensaios são realizados no mesmo momento da pré-produção. Por isso, este espaço da sala de ensaio precisa se manter em constante construção, tendo em vista que o elenco é como os músculos e a carne do corpo fílmico”.

Guerra recordou que seu primeiro contato com a diretora Ana Johann aconteceu seis meses antes das filmagens: “A dramaturgia da Ana tem uma estrutura fabular, narrada de forma realista. Era um roteiro que estava maduro. Ao mesmo tempo, a Ana deixava enigmas, para que os atores buscassem as respostas na sala de ensaio. Nesse sentido, minha função foi ser ponte entre os atores e a direção, ser uma extensão da direção, como um lugar de vínculo”.

O preparador de elencodestacou ainda que a produção de casting teve uma função muito importante para o trabalho de preparação desse elenco: “Tínhamos tessituras muito ricas de atores e atrizes muito diferentes e fortes. ‘A mesma parte de um homem’ tem muitas camadas e o espaço de interação e de trocas da sala de ensaio foi trazendo camadas livres, mas dentro desse espaço de restrição da dramaturgia, trouxe uma sofisticação para essa estrutura. Os atores são catalisadores da descoberta e puderam encontrar caminhos livres dentro dessa dramaturgia madura”.

Já a atriz Liliane Rovaris salientou que está acostumada em atuar com a estrutura de um texto fechado e que, por outro lado, “às vezes, quando a dramaturgia se dá por meio do improviso, fica até mais difícil, ser livre para estar presente”.

Sobre sua experiência no filme O Cerco, Liliane afirmou que o longa-metragem foi todo construído a partir de situações e inquietações propostas pelos diretores: “A dramaturgia foi construída em duas etapas. Primeiro, em conversas antes das cenas, onde cada diretor trazia um embate para a personagem. Era tudo improvisado, mas também muito conversado. Como os diretores traziam muitas questões tensionadas e sabíamos onde queríamos chegar, eram situações que me provocavam como mulher. Nesse sentido, a montagem também foi muito importante nessa construção”.

A construção dos personagens e da dramaturgia de A Mesma Parte de um Homem e O Cerco são bem diversas da utilizada por Marcus Curvelo, ator e diretor do longa-metragem Eu, Empresa: “Partimos inicialmente de uma proposta documental, depois fizemos essa opção por um viés mais ficcional. Essa questão da dramaturgia, elenco e diálogos foi muito pensada. Nosso processo partiu de um roteiro, mas algumas cenas não foram roteirizadas, partiram de tensões apresentadas pelos corroteiristas. Nesses momentos, me referenciei nos realities shows. Isso serviu como uma indicação para quem participou do filme e que não era ator, pois essas pessoas perceberam que poderiam interpretar uma versão de si mesmos”.

O personagem de Marcus, Joder, já existia antes de Eu, Empresa: “Ele nasceu nos meus curtas, como um alter ego. Mas para este filme, foi preciso olhar para o personagem com um distanciamento, para compreender qual o nível de autoconsciência ele teria e isso veio da discussão do argumento”. Sobre o processo de atuação, Curvelo salientou que era muito calcado das intenções presentes no texto, das falas e do encaminhamento da dramaturgia: “Não ensaiamos nada e tentamos pegar o que acontecia no momento. Sentíamos que precisávamos borrar nossas identidades para cada situação, interação ou objetivo de cada momento da narrativa”.

Lila Foster salientou que as três produções causam muito impacto no público, a partir de suas formas de produção e dramaturgia: “Todos os três filmes propõem um pacto muito profundo. Carregamos esses personagens e não saímos muito ilesos dessas experiências”.

Concluindo a discussão, Liliane Rovaris evidenciou que a riqueza do trabalho de atores e atrizes está na instabilidade da construção da dramaturgia: “São muitos filmes e muitas formas de atuar. Não existe uma fórmula. São muitos modos possíveis de se criar. É muito legal pensar o trabalho do ator assim, como um risco e uma constante investigação e escuta do outro”.

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