HOMENAGEM

Luciana Paes: Uma atriz entre o instinto e a técnica

A atriz paulistana Luciana Paes teve longa estrada teatral até se iniciar na atuação para o cinema. Nos últimos dez anos, se divide entre teatro, cinema e televisão. Dona de um estilo de interpretação que mescla rigor técnico com um carisma a toda prova, Luciana Paes se destaca na cena dramática brasileira pela fidelidade a uma mesma trupe teatral, a Companhia Hiato, dona de um estilo único, e pela capacidade de passar de registros afetivos a distanciados no cinema.

De formação acadêmica, Luciana se forma na Escola de Artes Dramáticas, da USP, local em que justamente conhece as pessoas que seriam seus futuros companheiros de palco. Da formação na USP, retém-se como determinante para seus passos de atriz profissional a formação clownesca, desenvolvida em parceria com a professora Cristiane Paoli Quito. Antes de se juntar à Companhia Hiato, da qual faz parte até hoje, Luciana trabalha no teatro sob a batuta de Georgette Fadel e Antonio Bortolanza em textos de Caio Fernando Abreu (Sobreviventes, 2003) e Paulo Pontes em parceria com Chico Buarque (Gota D’Agua, 2005).

Luciana é integrante da companhia Hiato há dez anos, grupo de teatro dos mais instigantes da cena brasileira contemporânea. A Hiato desenvolve uma pesquisa teatral sem par no Brasil, mesclando o envolvimento emocional do espectador com o jogo autorreflexivo dos atores. Ao lado de Leonardo Moreira (dramaturgo) e das colegas de cena (Aline Filácomo, Aura Cunha, Fernanda Stefanski, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli e Thiago Amaral), Luciana se reinventa a cada espetáculo. Mostrou um humor empático como a atriz famosa voltando para casa para o aniversário do pai em O Jardim (2011), obra-prima de engenharia teatral e capacidade de criação de laços afetivos com a plateia; revelou toda a fraqueza de um corpo e, paradoxalmente, sua força de se ressignificar no monólogo de Ficção (2012); e expôs sua história pessoal mesclando-a com a da mulher abandonada Calypso em Odisseia (2018).

A particularidade da Companhia Hiato é ter construído seu estilo nessa intersecção entre dramaturgia ficcional e elementos da vida pessoal dos atores. A experiência humana e social do ator é a matéria-prima da composição da dramaturgia e dos personagens, estilo que a teoria teatral chama de “teatro documental”. A tomada de consciência politica dos primórdios do teatral documental, que flerta com o teatro épico de Bertolt Brecht e o teatro político de Erwin Piscator, dá lugar, na Hiato, a momentos de pura catarse emocional por parte do espectador. A ator se desnuda na frente do público de maneira inédita na cena brasileira e Luciana protagoniza diversos desses momentos de entrega total ao ofício teatral, ao construir com o espectador, muitas vezes olhos nos olhos, uma intimidade que beira a cumplicidade de melhores amigos.

A passagem para o cinema se dá a partir de 2009, quando Luciana aparece em alguns curtas metragens de destaque até protagonizar A Mão que Afaga (Gabriela Amaral Almeida, 2012). No papel da atendente de telemarketing Estela, que prepara uma festa de aniversáriopara o filho pequeno, Luciana trabalha num registro que desafia até as atrizes mais experientes : o de nadar nas águas do jogo emotivo e distanciado ao mesmo tempo. O filme trabalha o corpo e a subjetividade da atriz como elemento integrante de um quebra-cabeças que a todo tempo evidencia o constrangimento de determinados ritos sociais. Falando de solidão e incomunicabilidade, o filme insere o trabalho da atriz na nobre linhagem de atuação distanciada no cinema, que passa pelos mestres Robert Bresson e Manoel de Oliveira. Por esse trabalho, Luciana Paes ganho o prêmio de Melhor Atriz de Curta Metragem no Festival de Brasília.

Nesse mesmo momento, a televisão descobre o potencial cômico de Luciana Paes. Na trama de Além do Horizonte (2013), ela desenvolve a veia que já vinha sendo sentida no teatro, fruto da formação clownesca da universidade. O tom é retomado em outras produções de TV, assim como no cinema mais comercial, como nas comédiasCrô, o filme (Bruno Barreto, 2013) e T.O.C. Transtornada Obsessiva Compulsiva (Paulinho Caruso e Teo Poppovic, 2017). O corpo e o rosto de Luciana se prestam à versatilidade de viver uma mulher tímida e com problemas de autoestima até umamulher exuberante e sexualmente desenfreada. É difícil pensar que o rosto que se vê no primeiro plano de A Mão que Afaga pertence à mesma atriz que se rasga e se despe com desenvoltura de uma leoa em Odisseia. No meio desse caminho, a potência vocal da atriz propicia, no teatro principalmente, momentos de júbilo musical.

Luciana logo alçança o posto de protagonista em longa-metragem. Em Sinfonia da Necrópole (Juliana Rojas, 2014), vivendo uma agente mortuária motoqueira e destemida. É digno de nota as parcerias criativas que Luciana desenvolve com diretoras de cinema brasileiras. Além das duas acima, ela trabalhou com Iris Junges (Serra do Mar, 2012) e Anna Muylaert (Mãe só há uma, 2018). Num país carente de parcerias frutíferas entre realizadores e atores, a que liga Luciana a Gabriela Amaral Almeida se destaca, principalmente por aliar a sensibilidade de duas mulheres, atrás e à frente das câmeras, algo inusitado até no cinema mundial.

Luciana é o centro nervoso de Animal Cordial (Gabriela Amaral Almeida, 2017), filme exibido na homenagem da Mostra de Tiradentes de São Paulo, papel-explosão no qual a atriz utiliza o fôlego teatral para construir uma mulher ambígua, entre a repressão e o furor. De novo a dualidade do corpo, entre o frágil e o exuberante, é explorada por realizadora e atriz na criação da personagem. Nesse filme, Luciana se experimenta no gênero do suspense-horror, num jogo que lembra as caracterizações de filmes de Brian De Palma e Dario Argento.

Renovando a parceria com Gabriela Amaral e as mulheres duplas, em A Sombra do Pai (2018), Luciana vive a tia da menina com poderes paranormais incompreendida pelo pai (Julio Machado).O papel de Luciana Paes é a gota cômica que não deixa o vaso-cheio-até-à-borda do drama familiar transbordar. O filme guarda um tom grave, bem ligado aos gêneros de predileção da realizadora, apenas atenuado pela dupla cômico-patética vivida por Luciana e Rafael Raposo. Nesse papel, Luciana ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Brasília.

 

Pedro Maciel Guimarães
Curador Mostra Tirandentes | SP 2019