A palavra imaginação é ambivalente. Pode ser tanto a capacidade de representar imagens de coisas reais ou ideais como pode ser com um pensamento que se sustenta em algo que não existe. Seja qual for a orientação que se dê à palavra, o seu fundamento comum consiste em definir a produção de uma imagem que originalmente não pertence aos domínios da realidade material e imediata, mas que projeta nela (ou a partir dela) uma outra visão. Chamamos aqui de imaginação a criação (de uma imagem, de uma ação) inaudita que desafia as representações políticas ou narrativas mais hegemônicas. A imaginação não seria, então, fruto abstrato do “mundo das ideias”, mas nasceria da atenção ao presente e da recusa o binarismo medo/esperança que nos joga inevitavelmente para as tramas de um passado traumático (e seu retorno) ou à promessa (catastrófica ou salvífica) de um futuro de superação.

Se alguns anos ou décadas atrás se dizia que a maior parte do cinema brasileiro estava fora do compasso de seu tempo por causa de filmes pouco atentos e sensíveis àquilo que se filmava, hoje não se pode dizer isso, ainda que nem sempre os filmes encontrem uma forma potente para lidar aquilo que investigam. Hoje, inclusive, há uma hipertrofia do presente em muitos dos filmes – entre curtas, médias e longas –realizados no cinema brasileiro anualmente. Há em profusão de respostas à urgência dos temas políticos e sociais atuais, defesas da diversidade de modos de vida não convencionais, mas que em muitos casos se conformam com uma noção vulgar de realidade, mais preocupada com conteúdos e registro de fatos do que com a forma. Oposta a essa hipertrofia, a atenção ao presente vai encontrar novos e notáveis vetores de imaginação e buscará elaborar ideias, temporalidades e experiências que consistam na criação e na expressão de novas formas de entender, agir e estar no mundo. A imaginação em sua potência seria, portanto, uma transfiguração da miragem da realidade, um olhar para as coisas tais como elas são em sua materialidade para que possa ser possível perscrutar aí outras camadas dos jogos de forças sociais e de outras dimensões temporais e sentimentais desse todo complexo e nunca uno a que chamamos de realidade. A imaginação sugere um salto qualitativo porque formal e que não separa “conteúdo e forma”, velha dicotomia que há muito não faz sentido, mas que vez ou outra volta para assombrar e mutilar a experiência.

Em entrevista a Kênia Freitas no catálogo do 21ºFest Curtas BH, o artista visual Christopher Harris, citando a pesquisadora Toby Lee, fala sobre como uma ideia de realidade é usada como arma de opressão contra negras e negros: “o que precisamos é de uma forma melhor de cinema, que enfrente a própria noção de realidade ao invés de regressar a uma experiência previamente aceita como realidade”. E a seguir completa a reflexão com um apontamento propositivo em que diz querer desafiar e desmontar o que é considerado realidade, que é, no fim das contas, a constatação da tragédia social e da condição opressiva em uma chave que “reinscreve e reifica”. Harris indica que um dos problemas dessa lógica é a falsa divisão entre forma e conteúdo e aponta a necessidade de trazer à tona a dimensão estética da realidade, em vez de separar de um lado a arte/forma e a agenda política de outro.

A ideia de um conteúdo que pode se adequar a qualquer forma não é só enganosa, mas é reacionária. Estamos em um momento histórico em que os “criadores de conteúdo” são a vanguarda regressiva: as fakenews, os “conteúdos audiovisuais” que tentam apagar a distinção entre criação artística e publicidade de produtos, o “jornalismo declaratório” (que abre mão da reportagem e da investigação) e até mesmo o tipo de educação que troca a construção de conhecimento pela transmissão de conteúdos. Isso tudo compõe uma noção de realidade que acredita na propagação e na oferta de conteúdos na contramão da criação de novas formas, logo de novas ideias, novos regimes de sensibilidade, novos modos expressivos e na criação de formas de vida alternativas às convenções. Alias, o termo “criador de conteúdo”, conceito que agências e produtoras se utilizam para definir esse novo profissional da “economia criativa” supostamente sofisticado e que mistura entretenimento e publicidade amalgamados até mesmo com causas sociais, é, por si só, e de maneira escancarada, sintoma não só do cinismo contemporâneo, mas de uma lobotomia política e ideológica. Mantêm-se as formas (sua lógica e estrutura) e investe-se no conteúdo, assim o filme publicitário de um banco pode ser ao mesmo tempo uma campanha contra a fome, quando, em paralelo, o banqueiro faz publicamente discurso contra o Estado de bem-estar social e pede a destruição de políticas trabalhistas.

Intervenção e imaginação

A Imaginação como Potência é a temática da Mostra de Cinema de Tiradentes SP 2020 e sugere a imaginação como esse desafio às noções mais convencionais de realidade e de realismo, redimensionando-as, em um momento de constrangimento aos imaginários que estão fora dos padrões normativos. Esse constrangimento à imaginação e aos imaginários é uma guerra que não se dá só no campo institucional, no caso das políticas públicas, mas também no campo simbólico, no que diz respeito à produção cultural como um todo.

O desafio da imaginação na sua potência é o que nos interessa aqui e o que pode estimular um debate profícuo nesse momento do país. Um momento em que ocorre uma disputa entre formas de entender o passado e formas de projetar o futuro. Nossa atual circunstância política é o retorno de um passado recalcado, ainda que se apresente falsamente como futuro, como novo.

Na conjuntura atual não é só uma ruptura que vemos, mas um esforço (ainda que celerado) de mudança de paradigmas em uma obscenidade perversa. Assistimos a isso sentados em resignação lamuriosa ou, no melhor dos casos, em resistência reativa que “bota a boca no trombone” com pouco ou nenhum resultado efetivo.

Quando acontece uma violência não basta só “resistir”, mas urge se reinventar e buscar uma estratégia nova. A imaginação nos sugere não só a reconfiguração de nossas práticas sociais e políticas, mas também de nossos paradigmas.

Neste ano de 2020 a Mostra de Cinema de Tiradentes SP traz parte da programação da 23ªedição mineira do evento e ainda adiciona estreias paulistas, uma produção que vem à luz sob a influência de um processo coletivo que gestou o escândalo que foi o ano de 2019. De um lado o exercício da imaginação em muitos filmes se deu por meio da fabulação, em uma poética da angústia e do medo em que o mundo imaginado revela um outro olhar para esses impasses, rompendo, em muitos casos, com uma noção vulgar de realismo que muitas vezes se provou mais esterilizante do que criativa no cinema brasileiro. Por outro lado, é possível ver em alguns trabalhos o gesto criativo que não vai trabalhar a partir da distopia, mas criará imagens e procedimentos de linguagem com referenciais que devem muito pouco (ou nada) aos modelos em voga no mercado de cinema de autor internacional. Há fenômenos bem variados, que vão desde o diálogo com o cinema de gênero (ficção científica, terror), passando por filmes que evocam em sua narrativa outras noções de temporalidade e cosmogonias (afro, indígena), de identidades (sobretudo LGBTI), redimensionam a luta de classes e, também, nos deram filmes identificados como documentário, mas que se lançam a criar imagens fora do arbítrio do real.

A homenagem este ano na edição paulista da Mostra de Tiradentes se encontra com a temática Imaginação como Potência com uma conformidade rara: a celebração ao coletivo Filmes do Caixote, criado em 2006 e composto por Caetano Gotardo, João Marcos de Almeida, Juliana Rojas e Marco Dutra;volta nossa atenção a uma produção de filmes que aponta ao mesmo tempo unidade e diversidade, radicalidade criativa e uma liberdade fundamental. A produção do Filmes do Caixote que conta quase uma década e meia é muito diversificada nos modos de realização e na forma de seus filmes, em curta ou em longa-metragem, realizados de maneira totalmente independente ou pelas vias mais tradicionais. O que se nota, independentemente dos modos de realização, é o gesto de explorar um imaginário do cinema e da cultura (do cinema paulista, do cinema moderno, do cinema de gênero, da poesia literária e visual) e fazer um investimento sem concessões à invenção poética, à beleza e ao estranhamento reverberado em exercícios estéticos que reimaginam – como performance, fábula e ensaio – a história do cinema brasileiro, os afetos, os corpos e a violência da história, em especial uma história contada desde o ponto de vista deste espaço urbano que é São Paulo.

Na Mostra de Tiradentes SP 2020 o desejo expresso pelos filmes, seja da programação, seja da homenagem, não é só o de interpretar a experiência atual, mas também o de provocar imagens que nos remetam a uma perspectiva sobre o passado, tendo em vista não só um olhar original sobre nossas fraturas sociais e políticas, mas também arriscando sugerir uma superação delas. Filmes, em especial feitos por pessoas LGBTI, negras, indígenas e mulheres, que procuram reescrever experiências do passado (colonial e/ou recente), para “ressuscitar uma experiência coletiva traumática e enterrá-la adequadamente”, pois uma das camadas do que ocorre hoje no país é uma disputa do imaginário, uma disputa entre formas de entender o passado e formas de projetar o futuro. É possível reconhecer que os filmes tentam não só esboçar o testemunho da ação política dos tempos presentes, mas também se lançam a imaginar outros mundos, outras possibilidades de existência e ir para além do fatalismo preconizado pela barbárie institucionalizada e pela melancolia.

O cinema é um lugar de disputas simbólicas, que podem dar forma (e um sentido) sensível às novas ideias e perspectivas e, também, criar fissuras nos consensos que sustentam os modos de uma comunidade e uma sociedade entenderem e enxergarem a si próprias, sua história, suas feridas abertas e suas possibilidades. O nosso compromisso com o cinema brasileiro é aprendermos a olhar, perscrutar e discutir esses filmes hoje, é entender o peso e a medida do que as fabulações e fantasmagorias nos dão a ver.  A imaginação nos convida a deixarmos de ser vítimas do passado e reféns do futuro. A sua potência é a irrupção do novo, que detona com a insipidez criativa e, nos melhores casos (sempre os mais excitantes e perigosos), pode nos levar por caminhos inexplorados.O exercício da imaginação radical é uma possibilidade de transfiguração do mundo.

Francis Vogner dos Reis
Coordenador curatorial