Uma constelação reluzente de filmes

Formado por Caetano Gotardo, João Marcos de Almeida, Juliana Rojas, Marco Dutra e Sergio Silva, o Filmes do Caixote foi uma das mais notórias experiências de coletivo cinematográfico em São Paulo, criada mais ou menos no mesmo momento – primeira década do século XXI –que em outros estados despontavam coletivos fundamentais no cinema contemporâneo brasileiro, como a Teia em Minas Gerais e Alumbramento no Ceará. Esse fenômeno dos coletivos se viabilizou como uma produção artesanal que ia, inicialmente, na contramão do cinema incentivado por editais e que demandavam uma forma de trabalho e criação profissionalizadas (ou seja, industriais). César Migliorin, no artigo “O que é um coletivo”, ressalta que esse caráter processual “não se deve ao fato de serem eles grupos ou produtoras que se forjam apenas para a execução de algo, mas ao fato de haver, nessas obras, uma parte da intensidade de estar junto, com evidentes consequências para a estética das obras”.

O coletivo é composto por Caetano Gotardo, Marco Dutra e Juliana Rojas, egressos do curso de Cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP no início dos anos 2000, e Sergio Silva e João Marcos de Almeida, que entre outras coisas fizeram (e fazem, no caso de Sergio Silva) parte dos quadros da Cinemateca Brasileira. Não que essas experiências institucionais os definam, mas de algum modo revelam o lastro formativo que diz respeito à obra desses cineastas, tanto no cinema de corte industrial e/ou autoral do trio formado pela ECA, quanto numa inclinação ensaística que se faz a partir do imaginário pretérito do cinema brasileiro em alguns filmes da dupla Silva e Almeida. De qualquer modo, ainda que essas características sejam importantes como dado de formação (e informação) e amparadas em uma contingência específica de São Paulo, essas diferenças não se mostram tão estanques nos filmes e, mais importante: se há algo avesso à institucionalidade quadrada, convencional e esterilizante, é o Filmes do Caixote.

É possível traçar em todos os seus filmes uma súmula do que há de mais inventivo no cinema moderno brasileiro: trabalho radical com a técnica cinematográfica e a poesia de Júlio Bressane, passando pelo performatismo cru do cinema de invenção, o arrojo visual e musical de José Antônio Gracia&Ícaro Martins, o performatismo de Helena Ignez (aliás, uma presença em alguns de seus filmes), o impacto minimalista dos filmes da Paraísos Artificiais, o drama de Walter Hugo Khouri (mais especificamente em As Sombras), o amor pelo imaginário do cinema de gêneros como em Carlos Reichenbach e a referência às tradições clássicas como o horror, a ficção científica e o musical. Dito isso, nota-se que não é só o cinema que compõe o repertório. O que se vê com intensidade em todos os filmes são os exercícios particulares com a videoarte, poesia, a performance e o teatro, em especial o brechtiano. Todos os integrantes, em diferentes momentos, trabalharam com a Companhia do Latão.

Essa profusão de ideias e imagens foi metabolizada de maneira dinâmica nos Filmes do Caixote. Os curtas do coletivo são produções pequenas e experimentais realizadas em VHS, vídeo digital e até mesmo em película. O que se deduz de filmes como O Papel do Manto, de Sérgio Silva, A Criada da Condessa, de Juliana Rojas, Eva Nil Cem Anos Sem Filmes, de João Marcos de Almeida, Rede de Dormir, de Marco Dutra, e Matéria, de Caetano Gotardo, são empreitadas estéticas mais impressionistas do que discursivas, quase sempre performáticas e que levam em consideração a criação de formas a partir de uma exploração da câmera, fazendo dela mais um instrumento de poesia do que um meio de registro de realismo narrativo.

Obviamente os integrantes do Filmes do Caixote não restringiram suas atividades ao coletivo e, como é sabido, em seus diversos trabalhos não responderam a um método único e a um sistema muito rígido de realização. A liberdade sempre foi a tônica desse conjunto de filmes e realizadores. Fizeram muitos filmes de curta-metragem experimentais com aparato parcimonioso via coletivo, assinando as obras individualmente, em dupla ou em grupo. Entretanto, também filmaram longas e curtas pelos meios mais oficiais (editais, coproduções) com aparato mais robustoe circulação internacional, com seus integrantes exercendo diversas funções nos filmes uns dos outros.

Nos filmes do coletivo também se destaca a rede de colaboradores que tomam parte decisiva na história do Filmes do Caixote, como as atrizes Gilda Nomace, Helena Albergaria, Helena Ignez, o ator Eduardo Gomes, o fotógrafo Matheus Rocha, a produtora Sara Silveira, entre muitos outros produtores, atores, atrizes e profissionais técnicos.

Já os longas-metragens realizados pelos integrantes do Filmes do Caixote como Trabalhar Cansa e As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra, Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, O que se Move e Seus Ossos e seus Olhos, de Caetano Gotardo, e o recente Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, são obras que, por mais que sejam trabalhos em parceria com outras produtoras, carregam na colaboração e no seu imaginário poético os traços de estilo presentes nos curtas dos cineastas (e da cineasta) do coletivo.

Esse conjunto de filmes nos coloca questões não só sobre o cinema contemporâneo, mas também sobre a produção paulista como um todo. Se historicamente São Paulo se notabiliza por uma produção de filmes realizada em um esquema industrial, é importante notar que as maiores e mais imaginativas contribuições estéticas no cinema feito na cidade sempre vieram de pequenos grupos criativos que buscaram reinventar (ainda que provisoriamente) modos de criação. Do cinema marginal à produtora Paraísos Artificiais, os celeiros de invenção mais efusivos surgem na contramão dos esquemas de criação e trabalho mais hegemônicos. O coletivo Filmes do Caixote é um dos mais recentes e exuberantes exemplos e sua obra lembra os versos que Arrigo Barnabé e Eduardo Gudin compuseram para a música tema do filme Cidade Oculta, de Chico Botelho: Misteriosamente uma androide/Gritou docemente/Me mostrou a vida/Me encheu de cores/Desenhando um holograma em meu coração/Com seus olhos foi pintando um dia/Reinventando a alegria, brancas nuvens de verão/ E a poesia de repente volta a ter razão.

Francis Vogner dos Reis
Coordenador curatorial